C-R-A-C-K: O mal do século XXI
Droga é apontada como a principal causa de desestruturação familiar na tríplice fronteira
Ø Celso Azevedo Matéria realizada na disciplina de redação.
Foz do Iguaçu no Brasil,faz divisa com Argentina e Paraguai, por sua localização geográfica estampa as capas dos principais jornais do Brasil, como rota de contrabando, armas e drogas. E a somatória destes três fatores transforma o município em um dos mais violentos do país. A facilidade no transporte e a obtenção de alto lucro na venda destes produtos ilícitos, principalmente do crack, têm provocado o aumento do volume desta droga que ingressa no Estado do Paraná pela fronteira entre Brasil e Paraguai. A rentabilidade pode ser medida no comparativo com a maconha. Com apenas um quilo de crack obtém-se R$ 8 mil, o equivalente a mais de 200 quilos da erva Cannabis Sativa. De cada grama do derivado da cocaína, é possível extrair cinco pedras de crack, o que pode triplicar o lucro final, alcançando os R$ 24 mil. A constatação é do Núcleo de Repressão ao Tráfico de Foz do Iguaçu, do Departamento de Narcóticos (Denarc), que atribui a elevação das apreensões também à repressão mais intensa. Apenas nos três primeiros meses deste ano, as forças policiais já retiraram de circulação 43. 745 kg desta droga na cidade, prenderam sete pessoas e apreenderam 3 menores por tráfico.
Liz Aparecida Barros de Sá, 29 anos, foi uma das chamadas “mulas” (pessoa contratada pelos traficantes para transportar a droga), atraídas pela promessa de dinheiro fácil. No dia 31 de Maio de 2007, Liz estava em um ônibus interestadual com destino a Itajaí, SC, quando no Posto de Fiscalização da Polícia Rodoviária Federal em Santa Terezinha de Itaipu, os agentes a abordaram e apreenderam com a jovem 1 kg e 400 gramas de crack. “Lembro como se fosse hoje. Estava frio naquele dia, não havia quase ninguém dentro do ônibus. Os policias entraram para fazer fiscalização de rotina, eu estava com a droga dentro da minha bolsa e com as pernas cobertas com um edredom. Para disfarçar, peguei um estojo de maquiagem, e enquanto os agentes revistavam o fundo do veículo, fiquei os observando pelo espelho do meu kit de maquiagem. Um dos agentes percebeu a minha movimentação e veio até onde eu estava me mandando descer do ônibus para uma revista. Quando ele abriu a bolsa, pegou o tablete questionando o que era. Você esta vendo então porque pergunta”, respondeu à jovem, presa há quase dois anos.
Esta semana, Liz recebeu uma Portaria da Justiça, onde a cada dois meses de pena cumprida, poderá passar uma semana em casa com a família. A filha com nove anos passou dois longe do carinho da mãe. “Sentia muita falta das pequenas coisas, como poder dar banho na minha filha, fazer a comida preferida dela e dormir juntinhas. É muito difícil estar lá dentro, sabendo que estou perdendo uma das mais importantes fases da vida dela. Quando penso nisso, o arrependimento bate mais forte. Não há dinheiro no mundo que pague estes momentos”, diz Liz emocionada.
Geralmente o entorpecente tem como destino as capitais brasileiras, como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, no entanto outra rota detectada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) é Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mas apesar destas outras formas de transporte ser mais lucrativas, ainda grande parte do crack é apreendido na rodoviária internacional da cidade. Segundo o Delegado Chefe do Denarc de Foz do Iguaçu, Michael Eymard Rocha de França Araújo, quando transportados em carros de passeio e caminhões as porções levadas são maiores, mas os traficantes ainda preferem a forma mais comum de transporte. “E mais rentável aos criminosos aliciar jovens para levar o entorpecente em ônibus e junto ao corpo”, como foi o caso de Liz.
Na avaliação do Delegado, não se pode afirmar que o aumento do volume de crack provoque a diminuição do tráfico de outras drogas. “Cada uma tem seu mercado. Aumenta-se o crack, eleva-se a repressão e consequentemente as apreensões.
A pena por tráfico de drogas pode chegar a 15 anos. Liz foi condenada a seis anos de prisão, mas por ser ré primária, ter residência fixa e bom comportamento dentro do presídio, cumprirá apenas um terço da sua pena. A previsão para ganhar a liberdade é até janeiro de 2012. “Não vejo à hora deste dia chegar. Quero apagar da memória estes dois últimos anos da minha vida”, completa.
O RECOMEÇO
Traficante versus viciado. Aqui na fronteira, os veículos de comunicação não cansam de noticiar pessoas que perderam a vida por causa das drogas. Muitas delas morreram com cachimbos, pedras, papelotes e cigarros de maconha nas mãos, sinais do vício desenfreado e descontrolado que acabou com suas vidas. Elas não largaram o vício, mas enfim o vício as largou. Outras pessoas, ainda, estão no meio do caminho, ou lutando para sair, ou se entregando aos poucos a ele. E quem sofre durante todo o processo, é mais uma vez a família. Dona M.S.B, de 65 anos sente na pele toda esta dor. O neto de 16 anos há três é usuário de drogas. Depois que o filho de M.S.B faleceu em um acidente de carro, o neto se afundou no vício tornando-se um adolescente violento. “Uma vez, um amigo viciado do meu neto, quase me apunhalou pelas costas. Minha nora havia pedido para ajudá-la a tirar estas más companhias de perto dele. Pedi então que eles saíssem da nossa casa, mas como estavam sobre o efeito das drogas, ficaram revoltados e este amigo do meu neto veio para me atacar. Nesta hora comecei a rezar e pedi proteção a Deus, que ele me envolvesse em seu manto sagrado. Foi então que o menino largou a faca perto da porta da casa e saiu”, conta M.S.B.
Depois deste fato, ela resolveu sair da casa da nora. Mas, sem ter onde morar precisou pedir ajuda a Casa Abrigo de Foz do Iguaçu, e foi nesta entidade que descobriu um novo sentido para a vida. “Aqui eu encontrei paz, felicidade, tranquilidade e carinho.
M.S.B, 65, saiu de casa por causa do neto viciado.
Eu pensei que a minha vida havia acabado que nunca sairia daquela situação. Acreditava que não existiam mais pessoas carinhosas, que não havia mais alguém no mundo que cuidasse de mim. Na Casa Abrigo, encontrei pessoas conhecidas que há muito tempo não via. Aqui eu me sinto em paz, para mim este lugar é o céu”, relata.
O QUE É O CRACK?
Denarc em 2011 já apreendeu mais de 43.745 kg de Crack
A fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande. Seu efeito dura de 3 a 10 minutos, trazendo ao usuário uma sensação de euforia mais forte do que o da cocaína, porém, após o consumo produz muita depressão, levando a pessoa a fumar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência. Não é raro o usuário tem alucinações e paranóia (ilusões de perseguição). É uma droga, geralmente fumada, feita a partir da mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio. É uma forma impura de cocaína e não um sub-produto. O nome deriva do verbo "to crack", que, em inglês, significa quebrar, devido aos pequenos estalidos produzidos pelos cristais (as pedras) ao serem queimados, como se quebrassem.